futuro

Algo em pensar no futuro me parece às vezes sedutor como um canto de sereia que me entorpece e me faz esquecer da realidade ao redor, onde me prendo em variações pequenas e fugazes de decisões que tomei ou tomarei ao longo da minha vida. Mas as vezes, quando ouso vislumbrar o futuro mais distante, porém muito mais real - aqui me refiro a ideia de estar com os pés no chão, o canto se torna um grito ensurdecedor e me sinto sufocada. Não foi uma única vez que pensar nas mil coisas que precisam ser feitas, me fez ficar com os olhos cheios d'água - o choro não sai, e me parece muito covarde chorar por medo do desconhecido.

E esse medo/anseio pelo desconhecido que é o futuro fez a humanidade criar, encontrar e elaborar forma de entender como operam as forças inomináveis e incompreensíveis que conduzem a vida humana e seu emaranhado de acasos e desencontros estranhos e deliciosos. Mas até ferramentas tem limitações, e elas tem um gosto cínico quando usadas de forma exaustiva. O tarô já se recusa a me responder pela enésima vez se eu devo ir pra área x ou y, ou se darei certo com aquela pessoa. Tudo isso porque eu tenho medo do desconhecido. E chegar a ser engraçado porque a previsibilidade me entedia e tudo que é muito rotineiro me deixa meio puta com a vida.

E aí nesse meio termo entre previsibilidade e acaso, eu me ponho em provas de fogo onde sei que não vou lidar direito mas quero me testar pois sinto que preciso desse fortalecimento. Só que eu sou péssima em esperar o tempo das coisas - principalmente o meu. Eu nunca pego levo comigo mesma. E até soa meio "uau, você deve ser foda". Isso só me rende comportamento procrastinador e covarde, onde eu acabo estancando no meio da pista como quem acabou de tirar a carteira de motorista e tentou dar seu primeiro retorno. 

Mas aí eu me cobro tanto em encontrar e desenhar meu futuro, que seja no medo ou na sedução dele, eu acabo esquecendo e parando na progressão do agora, e perco muita coisa, detalhes importantes que deveriam ser vividos da maneira certa. Se é que tem, eu acho que tem sim. Sempre tem. 


Mas ai eu tento pegar leve comigo mesma, as vezes eu consigo colocar a mão no meu ombro e respirar fundo e repetir "cara, calma.". Mas dura pouco. Porque sinto que tá tudo passando diante dos meus olhos e eu não tenho ideia do que eu vou fazer da minha vida, e eu odeio a sensação de que eu preciso fazer algo foda, porque soa extremamente narcisista e de um egocentrismo que eu detesto admitir que tenho, e acabo me sentindo ainda mais patética quando vou vivendo a vida real. E a vida real as vezes é mais sem graça do que nossa imaginação enfeita e embeleza, outras vezes é um tapa que pega no ouvido e deixa a gente meio surdo. Nesse momento tô meio surda pelo motivo mais banal e fútil: acabou a festa, as luzes da boate se acenderam. É de manhã lá fora, tem gente saindo pra correr e passarinhos cantando. As drogas estão no sangue e o crash tá vindo, porque as cinco horas de efeitos alucinantes acabaram. A vida real é esse crash, essa derradeira queda de serotonina e dopamina que teu corpo tem que processar depois de misturar uma porrada de anfetamina, cocaína e sabe lá deus mais o que.


Crash. Vida real bate na porta - eu quero enfiar uma bala no ouvido.

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